Sexualidade e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.

Año de edición: 2016
355 páginas.
Editora: CEPdePA
Cidade de publicação: Porto Alegre, Brasil

Comenta: Lizana Dallazen[1]

O livro Sexualidade é uma publicação pensada e desenvolvida pelo Centro de Estudos Psicanalítico de Porto Alegre. Os autores apresentam argumentos pertinentes que revelam o valor de empreender no caminho de pensar a sexualidade, tanto do ponto de vista da instituição, como do ponto de vista do leitor. Estes vão desde imbricar o psicanalista no difícil trabalho de publicar suas produções mostrando o que pensa e como trabalha em espaços não restritos a psicanalistas, investigar inquietações que surgem com a publicação concomitante dos historiais do Caso Dora e os Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade, manter o compromisso com o vigor da psicanálise, criar oportunidade de os membros da instituição produzirem a partir dos lugares diversos que ocupam e ainda o desejo de fazer uma ponte histórica entre as origens do pensar psicanalítico e a sede do CEPdePA, na rua Tobias da Silva, 287.

A sexualidade, como fio condutor do livro, gera, de imediato, a questão quanto a sua atualidade. É possível encontrarmos ancoragem para sustentar a pertinência do tema na justificativa da necessidade de escutar e produzir sobre esse assunto a partir dos discursos do nosso meio cultural, como afirmam os autores. Concordamos que, há alguns anos viemos observando a movimentação fervilhante na contemporaneidade colocando em relevo diversas questões referentes à sexualidade interrogando nosso conhecimento e desacomodando os psicanalistas em seu trabalho cotidiano.

Não é difícil elencarmos questões para a reflexão e para a investigação psicanalítica quando pensamos na atualidade do assunto. Basta voltar nossos holofotes para os movimentos dos adolescentes e perceber suas dificuldades ao experenciarem suas reedições edípicas, para as configurações familiares que se apresentam hoje ecoando nos consultórios através de constituições psíquicas distintas das neuroses de transferência, para as demandas de instituições em busca de pareceres favoráveis ou desfavoráveis de psicanalistas quanto ao desejo de alguns sujeitos de realizarem cirurgias de transformações de sexo e de redução de estômago, para crimes cometidos em nome das homofobias, para a luta pelos direitos civis de casais homossexuais, para o barramento da psicanálise no tratamento de certas psicopatologias como os autismos, para a dificuldade que o psicanalista encontra entre seus próprios pares em debater o tema da perversão sob o risco de parecer politicamente incorreto, entre outros movimentos. Enfim, uma gama de debates que nos impõe a necessidade de revisitar o conceito de sexualidade, e sobretudo, os trabalhos freudianos que versam sobre o assunto.

Idealizado e desenvolvido cuidadosamente, o livro alberga duas partes. A primeira consiste em um trabalho cuidadoso e de elevado valor histórico, pois resguarda a tradução do texto alemão para o português Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, publicado em 1905 – proposta inovadora de relermos os ensaios na versão original escrita por Freud, resgatando os fundamentos de seu pensamento primeiro. Costumamos nos debruçar sobre estes ensaios em versões que trazem junto os vinte anos de revisões, acréscimos e transformações que o autor fez no texto, apegando-nos aos conceitos em suas formas finais, como utilizamos hoje. Perdemos com isso o frescor das ideias que estão na origem dos conceitos e a possibilidade de resgatar uma identificação com o espírito investigativo freudiano.

Falo em frescor porque é a palavra que me ocorria frequentemente ao longo da leitura da primeira parte do livro. Um trabalho arejado, vívido e com os olhos abertos para o mundo apresentando conceitos mais próximos do que autores importantes como Butler, por exemplo, trabalham acerca da sexualidade hoje. Seria apenas uma questão da tradução da linguagem do alemão para o português, sem que se passasse pelo inglês antes, ou sem que se lesse a obra em espanhol ou francês para uma máxima aproximação do original em alemão? Estas foram algumas questões que emergiram, além da vontade reler o texto com os adendos para que fosse possível comparar os momentos em que foram feitas significativas alterações, o que perdemos e ganhamos com estas, enfim, surgiu um desejo de ultrapassar a leitura e estudar o texto novamente.

Creio que não seja somente a questão da tradução e, sim, que se faz necessário reconhecermos que, ao menos no primeiro dos três ensaios, o tom dado por Freud nesta versão que este livro apresenta, era de maior abertura e aceitação em relação ao que estava por vir no mundo no que concerne aos diferentes modos com que os sujeitos se organizam em torno de sua sexualidade. Menciono o primeiro ensaio porque me pareceu mais arejado em relação à tradução da Edição Standard das Obras Completas. As palavras que foram escolhidas nesta tradução para afirmar que o sexo supera os limites do instinto e que há uma pequena solda entre a pulsão e o objeto, tornando a sexualidade ligada ao erotismo e à busca de satisfação, se aproximam bem mais dos discursos psicanalíticos atuais. O conteúdo pode parecer o mesmo, mas o efeito deste texto parece ser o de diminuir o preconceito com que o leitor possa escutar as afirmações do primeiro ensaio, deslizando o conteúdo para um raciocínio mais metapsicológico do que moralista. Sabemos que as notas e adendos agregados ao texto marcam claramente os pontos originais suprimidos ou que sofreram alterações importantes em seu desenvolvimento teórico. Mas o impacto causado pelo contato com o primeiro escrito do pai da psicanálise é revigorante.

Os outros dois ensaios, sem dúvida, são os mais importantes, pois são eles que sepultam a inocência das crianças com a afirmação de que existe sexualidade infantil desde os primórdios. São esses dois textos que declaram que a satisfação é autoerótica até certo tempo e que o bebê é capaz de tornar cada parte do seu corpo uma fonte de prazer erógeno. Bem como no terceiro ensaio, surgem as questões da puberdade que abrem o caminho para o tornar-se homem e o tornar-se mulher, com os mistérios e as diferenças entre esses trajetos. No entanto, esses dois ensaios não pareceram trazer tanto frescor em relação ao texto final de Freud com seus vinte anos de acréscimo. Cabe sublinhar que a leitura deste texto precisa ser realizada com a delicadeza de pensar onde as posteriores mudanças teóricas importantes estão, pois conceitos como o de sadismo e masoquismo, de sublimação, entre outros, vão sofrer alterações consideráveis e convém atentar para o fato de que se trata de uma leitura com o propósito de conhecer a história do desenvolvimento do conceito.

 O livro que, ao encerrar a primeira parte inaugura uma segunda, traz em seu bojo trabalhos contemporâneos sobre o tema da sexualidade, cumprindo primorosamente o objetivo de fazer uma ponte entre o passado histórico e as produções dos psicanalistas de Porto Alegre. Quem inaugura o segundo tempo do livro é Jacques André, que discorre sobre a origem do termo sexualidade apresentando-o. O autor francês escreve que a primeira evolução da sexualidade é pré-histórica e promoveu a disjunção do sexo e do instinto, pois a fêmea humana seria a única capaz de copular fora do período fértil, enquanto a segunda evolução relativiza o genital e faz da sexualidade infantil o centro da sexualidade humana. Entretanto, ele assinala ainda que o deslocamento essencial que Freud realiza se situa em outro ponto que é menos na direção da criança do que na direção do infantilismo. Seria o infantilismo dos adultos emergido nas falas que acontecem no divã que fazem Freud se voltar para sexualidade mais do que observações sobre as crianças. Mas seu texto vai além, transitando pelos pontos de senso comum sobre a sexualidade e como estes reverberam no gabinete dos psicanalistas.

Os artigos que se seguem ilustram, mostram, evidenciam com clareza e precisão os efeitos desse infantilismo da sexualidade no exercício privado do psicanalista em tempos pós-modernos. Sem a pretensão de falar de cada um dos capítulos da segunda parte, mas com o desejo de instigar a leitura, posso afirmar que uma teia sutil e delicada foi flutuando através do conteúdo de um a outro trabalho. Ao longo dos capítulos retorno à sensação de frescor e atualidade do tema, pois abordam questões como nossos preconceitos e o quanto estes nos impedem de pensar o homem nas formas de apresentação da sua psicossexualidade, momento em que corremos o risco freqüente de interpretar equivocadamente algumas manifestações como psicóticas sem que, no entanto, as sejam; nossos supostos vazios teóricos que nos impedem de avançar no trabalho clínico, remetendo à urgência de voltarmos a Freud para repensar qual seria a função analítica nos tempos de hoje. Seria impossível não encontrar no caminho do tema da sexualidade um trabalho que abordasse a questão Edípica com autores que ampliam o entendimento deste conceito no cabedal psicanalítico, e o caminho natural que segue é a sequência de alguns artigos que remetem a pontos diferentes de questionamento sobre a constituição feminina, psicopatologias que impedem o desenvolvimento da feminilidade e o papel da sexualidade neste terreno ainda espinhoso.

Longe de esgotar o tema da sexualidade, o livro do CEPdePA nos proporciona uma leitura fecunda que vai desde a tradução de um texto – que, vale reafirmar, é de valor histórico inquestionável para um psicanalista – até os questionamentos mais pertinentes presentes na nossa cultura. É inegável que a vigência da psicanálise está em voltar para teoria atravessada pelos processos psíquicos do momento em que vivemos para fazer trabalhar os conceitos e reabastecer assim o psicanalista com desdobramentos das teorias que abarquem a marca do que se repete hoje e, sobretudo, como se repete. Desta forma, acreditamos contribuir tanto para a clínica psicanalítica como para o avanço cultural.

[1] Psicanalista, Membro convidado do CEPdePA. E-mail: lizana.dallazen@gmail.com

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