Trauma E Os (Des)Esperados: O Sepultamento Das Palavras Vivas

Daniela Tremarin[1]

Resumo

Transformando sua inesgotável capacidade de empatia em uma experiência de solidariedade humana com a dor e desespero de todos, Ferenczi, a partir de uma postura de pensamento diferente de Freud, debruçou-se no quão fundamentais são as funções dos pais e de seu método pedagógico no processo de subjetivação, assim como de nossa responsabilidade como analistas. Ao postular que há três formas de se traumatizar uma criança, preocupou-se em pensar no risco das análises repetirem e agravarem o trauma infantil a partir de uma postura narcisista e/ou de hipocrisia profissional do analista, onde dotado de grande coragem intelectual dedicou-se a entender o trauma como consequência de uma confusão de línguas entre o adulto e a criança. A irrupção da paixão de um adulto, aqui entendido no sentido de loucura, desmesura, sobre um psiquismo ainda imaturo, acarreta a utilização de defesas como a clivagem psíquica e a identificação com o agressor como tentativas de sobreviver ao ambiente. Este trauma permanece inacessível a memória e pode apenas ser deduzido a partir das cicatrizes emocionais que tomam seu lugar, sendo que encontramos tais características nos pacientes limítrofes que hoje fazem parte da nossa clínica atual.

Palavras-chave: Trauma – Identificação com o agresor – Contratransferência – Hipocrisia profissional – Pacientes limítrofes.

I.- Introdução

Com a finalidade de problematizar uma questão importante e atual na clínica psicanalítica, aventurar-me-ei a realizar um percorrido pela obra desse tão polêmico e estimado autor, que ficara conhecido por seu atrevimento, como o “infans terrible” da psicanálise: Ferenczi. Este, que transformou sua inesgotável capacidade de empatia em uma experiência de solidariedade humana com a dor e o desespero de todos e se distinguiu por uma generosidade, uma coragem intelectual, uma independência e uma honestidade incomparáveis.

Neste momento, meu especial interesse residirá no resgate da teoria do trauma de Ferenczi como grande contribuição para a compreensão das patologias fronteiriças que se apresenta nos pacientes atualmente. Pacientes que se apresentam com aspectos de auto-destruição graves, resultado patológico de uma mente e língua presas. Contudo, há um outro vértice da teoria de Ferenczi, que compete a pacientes com traços perversos que aparecem em nossa clínica atual, mas que em uma outra oportunidade pretendo discutir sobre.

Ferenczi terminou propondo uma reformulação metapsicológica da teoria e da clínica psicanalítica, quando partiu de uma postura de pensamento diferente às formulações de Freud sobre a fantasia de sedução ligada aos pais. Foram vinte e cinco anos de relação entre ambos permeada por muitas discussões, discussões estas que parecem estar mais próximas de mal-entendidos do que da divergência de idéias entre ambos, já que Freud nunca negara a importância dos acontecimentos reais, e ou, os traumas reais na vida de um indivíduo e Ferenczi nunca desconsiderou ou excluiu a importância e a existência do papel da fantasia e do recalcamento na estruturação humana. Contudo, é sobre a importância do papel dos pais, mais especificamente, nas consequências de traumas na criança, quando estes possuem um funcionamento mental sob o aspecto da desmentida, que Ferenczi dirigiu a sua obra.

Por sua teoria original e inovadora da qual considerava que todo doente que pedia ajuda deveria recebê-la, e de que competia ao psicanalista inventar a melhor maneira de responder aos problemas que lhe eram apresentados, Ferenczi ficou conhecido como o analista dos casos difíceis. Assim, tornou-se o último recurso dos casos considerados desesperados, que de todos os lugares do mundo, lhe eram encaminhados por seus colegas.

É através do trabalho “Confusão de línguas entre o adulto e a criança”, apresentado em 1932 no XII Congresso Internacional de Psicanálise, que Ferenczi traça uma reformulação metapsicológica da teoria da sedução articulada com o trauma, porém Freud tentou dissuadi-lo para que não se lê esse trabalho. Freud tinha medo das repercussões no meio psicanalítico sobre a teoria de Ferenczi, já que é à fantasia de sedução que Freud confere como o autêntico objeto analítico e a verdadeira solução definitiva para o problema da etiologia das neuroses, mas Ferenczi, precursor de uma visão psicanalítica fundada na importância das relações objetais, debruçou-se no quão fundamentais são as funções dos pais e de seu método pedagógico no processo de subjetivação de um indivíduo, assim como da responsabilidade nossa como analistas, e por isso, corajosamente atreveu-se a tocar nesse assunto bastante polêmico para a época e, quem sabe, até hoje, para a psicanálise.

E é assim, que em desacordo com Freud, voltando seu olhar não em uma pressuposta experiência individual de um sujeito pulsional, mas na percepção de uma indiscernibilidade entre o bebê e o ambiente que o acolhe, e depois, entre o analista e seu analisando numa sala de análise, que postula sua teoria nas consequências no psiquismo do sujeito a partir do cuidado de pais perversos ou narcisistas onde, de forma louca, desmesurada e apaixonada, um trauma real acontece, e na repetição de tal trauma quando encontra-se novamente com o narcisismo do analista, questão da qual retomarei mais adiante.

O trauma ferencziano é designado então, pela ação de um psiquismo adulto que funciona pela defesa do desmentido e pela negação que teremos as consequências do trauma infantil.

Ferenczi pensava que havia basicamente três modos desses pais de traumatizar uma criança: 1- o amor forçado ou na falta de amor; 2- os frequentes e insuportáveis castigos e 3- o terrorismo do sofrimento.

 II.- O amor forçado ou a falta de amor

Embora o autor referisse o trauma à experiências de sedução incestuosa, de punição passional, ou de abandono à criança, o mais importante é que se trata de um acontecimento em que se age de forma esmagadora sobre o sujeito de maneira que ele não pode oferecer resistência. A noção de trauma para ele está indissoluvelmente vinculada à irrupção inesperada da paixão de um adulto no corpo e psiquismo de uma criança imatura, trauma aqui diz respeito a todas aquelas condições contínuas ou temporárias, acumulativas ou repentinas, que comportam formas de privação por excesso sobre o corpo e sobre a mente em formação e crescimento.

É no célebre texto de 1933, “Confusão de língua entre os adultos e a criança”, que Ferenczi discorre sobre a profunda marca traumática que a sedução incestuosa de um adulto doente, que atingiu sua maturidade sexual, imprime quando confunde a linguagem de ternura infantil e o desejo de ser amada da criança com um amor sensual:

Um adulto e uma criança amam-se; a criança tem fantasias lúdicas, como desempenhar um papel maternal em relação a um adulto. O jogo pode assumir uma força erótica, mas conserva-se, porém, sempre no nível da ternura. Não é o que se passa com adultos se tiverem tendências psicopatológicas…Confundem as brincadeiras infantis com os desejos de uma pessoa que atingiu a maturidade sexual, e deixam-se arrastar para a prática de atos sexuais sem pensar nas consequências” (Ferenczi, 1933, p.116).

O adulto da paixão é aquele que perde seus limites, ressaltando que para haver trauma não necessariamente acontece a prática sexual concreta, mas, uma linguagem violenta. A palavra “paixão” seria impregnada por Ferenczi em um sentido de exagero ou de abuso, sobre um psiquismo ainda incipiente, trata-se de um comportamento exaltado, de fato apaixonado, desmesurado, louco. Paixão e loucura parecem significar o mesmo.

Do outro lado, há a ternura, que não conhece o exagero da desmesura. Ela deve ser entendida não como ausência de sexualidade, mas como anterior à sexualidade sob o primado genital. A língua da ternura que é a própria da criança, é a língua do lúdico. Sobre isto escreve Ferenczi em 1930, que o que a criança deseja de fato, mesmo no que diz respeito as coisas sexuais, é somente o jogo e a ternura, e não a manifestação violenta da paixão.

No entanto, não é pelo evento em si ou sua persistência que a consequência desta vivência torna-se traumatogênica ou patológica, e sim, quando ocorre a negação da percepção correta da criança por parte do adulto ou de pessoas do círculo de confiança dela a qual ela recorre a fim de dar um significado, um sentido, ou ao menos um testemunho referente à experiência vivida de sofrimento, e não encontra.

De um modo geral, as relações com uma segunda pessoa de confiança – no exemplo escolhido, a mãe – não são suficientemente íntimas para que a criança possa encontrar uma ajuda junto dela; algumas tênues tentativas nesse sentido são repelidas pela mãe como tolices. A criança de quem se abusou converte-se num ser que obedece mecanicamente, ou que se fixa numa atitude obstinada; mas não pode mais explicar as razões dessa atitude.” (Ferenczi, 1933, p. 118)

Sabourin (1988) ressalta que na desmentida do adulto, são dois desmentidos que ocorrem ao mesmo tempo: o desmentido da história factual, ou seja, do que aconteceu, e o desmentido da autonomia do pensamento da criança. Dessa forma, o trauma tornar-se-á patogênico, através das provas de incompreensão, de punição à criança, exigir dela um heroísmo do qual ela ainda não é capaz, ou ainda reagir com um silêncio mortífero. Se, a reação do adulto não é o desmentido, e sim a compreensão e o acolhimento, o trauma patogênico não acontece.

Em “Análise de crianças com adultos”, de 1931, Ferenczi escreve: “[…] o pior é realmente a negação, a afirmação de que não aconteceu nada, de que não houve sofrimento ou até mesmo ser espancado e repreendido quando se manifesta a paralisia dos pensamentos ou dos movimentos” (p.91). Isso provoca um estado do qual ele chamou de “atomização” do psiquismo (1933, p.120), o mesmo que fragmentação, “uma paralisia completa de toda a espontaneidade, logo de todo trabalho de pensamento” além de voltar a agressão contra sua própria pessoa (p.90).

O adulto, que se comporta quase sempre como se nada tivesse ocorrido, proíbe à criança não somente a palavra, mas também a possibilidade de representação e fantasmatização. Assim, as palavras da criança são enterradas vivas, ou pior, a própria criança é enterrada viva visto que não possui mais uma identidade. Sobra então, a possibilidade de identificar-se com o agressor: este usurpa, invade o espaço egóico da criança, torna-se o posseiro desse ego, ignorando o seu próprio dono. A palavra da criança, assim, é tomada pela paixão.

Para Ferenczi, em breve, os afetos, os sentimentos e as necessidades, basicamente não defendidas e verbalizadas, permanecem fixados no corpo e na ação e o indivíduo renuncia à sua nascente organização subjetiva da experiência, adotando a visão externa que lhe é imposta. O resultado é que não os pode reconhecer completamente, por que as suas sensações nunca tiveram uma decodificação simbólica, ou se desidentifica destas por que são vividas como ameaçadoras e intoleráveis no contexto que toma conta dele.

Ferenczi é categórico em chamar a atenção para a questão de que as pulsões de auto-destruição logo entram em ação quando no encontro com o mundo essas crianças registraram os sinais conscientes e inconscientes de aversão ou de impaciência da mãe. Dessa forma, o bebê que é odiado primeiramente pela mãe antes que ele a odeie e antes que consiga entender que a mãe o odeia, ele intui arcaicamente, pela rejeição materna, ser um “hóspede não bem-vindo” (1928, p.57) e entende como um comando para morrer e para não existir psiquicamente. É justamente esse ódio, vindo de um adulto ambivalente que surpreende, assusta e traumatiza uma criança que gostaria de ser amada por este. Esse ódio transforma um ser que brinca espontaneamente, e com toda inocência, num autômato, culpado do amor e que, imitando ansiosamente o adulto, esquece-se a si mesmo.

Assim, até mesmo o próprio organismo e a própria mente podem ser tratados como estranhos e perigosos. Em casos extremos, nessa imobilidade absoluta, semelhante à morte a qual protege do sofrimento e da injúria insustentáveis, o que acontece é uma espécie de suicídio psíquico que, na realidade, é revolta furiosa contra tudo e contra todos, inclusive a si próprio.

É em “Adaptação da família a criança” de 1928 que Ferenczi traz à tona uma importante questão sobre a hospitalidade do ambiente em receber no seio de sua casa um recém-nascido e da profunda disponibilidade e adaptação em que a família necessita realizar para isso, e não o oposto. Logo, “a criança deve ser levada por um prodigioso dispêndio de amor, de ternura e de cuidados, a perdoar aos pais por terem-na posto no mundo sem lhe perguntar qual era sua intenção”. (Ferenczi, 1929, p.58)

Eu queria apenas indicar a probabilidade do fato de que crianças acolhidas com rudeza e sem carinho morrem facilmente e de bom grado. Ou utilizam um dos numerosos meios orgânicos para desaparecer rapidamente ou, se escapam a esse destino, conservarão um certo pessimismo e aversão à vida.” (Ferenczi, 1929, p. 58)

III.- Os frequentes e insuportáveis castigos

Paradoxalmente, enquanto o adulto sedutor assume atitudes superegóicas, pedagógicas e inclusive, hipocritamente moralistas, a criança introjeta os sentimentos de culpa que o adulto, em maior ou menor grau, sentiu por seus atos. Então, o medo diante desses adultos enfurecidos, de certo modo loucos, leva as crianças, como aponta Ferenczi a sentirem-se:

[…] física e moralmente indefesas, sua personalidade ainda é muito fraca para protestar, inclusive mentalmente. A força e autoridade esmagadora dos adultos as emudecem e podem fazê-las inclusive, perder a consciência. Mas quando este terror alcança seu ponto culminante, ele as obriga a submeter-se automaticamente à vontade do agressor, a adivinhar seu menor desejo, a obedecer esquecendo-se totalmente de si e identificando-se com o agressor […] que desaparece como realidade exterior e torna-se intrapsiquico […] mas a mudança significativa é a introjeção do sentimento de culpa do adulto: o jogo até então inofensivo aparece agora como um ato que merece castigo […] ” (Ferenczi, 1933, p. 117).

Ante a impossibilidade de se defender do adulto, a criança se submete a seus desejos, à sua vontade, acabando por identificar-se totalmente com ele, conceito que o autor nomeia no seu texto Confusão de línguas entre a criança e o adulto, de 1933, como “identificação com o agressor”. Ela identifica-se como uma saída desesperada a fim de se proteger do perigo que representam os adultos sem controle. Esta criança que tem a personalidade ainda fracamente desenvolvida: “[…] reage ao brusco desprazer, não pela defesa, mas pela identificação ansiosa e a introjeção daquele que a ameaça e o agride” (Ferenczi, 1933, p. 118).

Não obstante a culpa, consequências da depressão também ocorrem a essa criança que, com um adulto “rugindo de cólera” (Ferenczi, 1933, p. 119) realiza punições passionais quanto aos delitos que ela comete de brincadeira ou com sua ignorância e ingenuidade.

Para Ferenczi, daqui surgiriam a disposição ao profundo pessimismo e a fragmentação excessivas, a incapacidade e a desmotivação diante da vida, e a renúncia em sentir e participar frequentemente cobertas por uma exuberante progressão de uma inteligência sem afeto.

IV.- Terrorismo do sofrimento

Ferenczi em “Confusão de línguas entre o adulto e a criança” (1933) escreve:

As crianças são obrigadas a resolver toda espécie de conflitos familiares e carregam sobre seus frágeis ombros o fardo de todos os outros membros da família. Não o fazem, afinal de contas, por desinteresse puro, mas para poder desfrutar de novo a paz desaparecida e a ternura que daí decorre. Uma mãe que se queixa continuamente de seus padecimentos pode transformar seu filho pequeno num auxiliar para cuidar dela, ou seja, fazer dele um verdadeiro substituto materno, sem levar em conta os interesses próprios da criança.” (1933, p. 120)

Em Análise de crianças com adultos (1931), Ferenczi escreve que uma parte de sua própria personalidade começa a desempenhar o papel de mãe ou do pai com a outra parte de forma a tornar o abandono nulo ou sem efeito. O infans transforma-se então, em uma “criança psiquiatra” (p.120), de certa forma, uma criança que cuida, filhos preocupados em salvar os pais ou em salvar-se deles, à custa de sua própria espontaneidade e com uma restrição considerável da qualidade emocional em sua vida. “Fica-se com a maior parte do interesse suspenso no outro mundo, e o fragmento restante é apenas forte para viver uma vida de rotina” (1932, p. 66).

É para preservar o adulto em seu lugar de idealização que a criança se dispõe a tudo! A criança se dispõe a clivar-se e a tornar-se ela própria a culpada, é mais suportável, frente ao sentimento de desamparo psíquico e aniquilador que a perda de seu objeto idealizado traria.

Chega-se assim, a uma forma de personalidade feita unicamente de id e superego, ou seja, de ódio e culpa que, por conseguinte, é incapaz de afirmar-se em caso de desprazer; do mesmo modo que uma criança, que não chegou ainda em seu pleno desenvolvimento, é incapaz de suportar a solidão, se lhe falta a proteção materna e considerável ternura.” (1933, p. 118)

A esses sujeitos, que se assujeitaram a uma relação de assimetria injusta, como se apresenta a infância com estes pais loucos, vítimas da violência pela linguagem da paixão, crianças não amadas, não desejadas e não bem tratadas pelos excessivos castigos e por um ambiente de terror e indiferente, lhes resta o aniquilamento e o empobrecimento do Ego infantil. Em seu diário clínico de 1932, Ferenczi, no final de sua vida, dedica notáveis e intensas descrições sobre a clivagem narcísica que é causada por este tipo de trauma. A criança cede a sua alma ao adulto violento, intimidatório e ameaçador que dele abusa e ao ambiente circunstante que nele não crê, tornando, via introjeção e identificação primitiva, os eventos extrapsíquicos em internos.

O traumático transforma-se, então, em algo sem inscrição no aparelho psíquico. A este choque que sobrevém sempre sem preparação e tem o caráter de algo súbito, equivalerá a “aniquilação do sentimento de si, da capacidade de resistir, agir e pensar com vistas à defesa do si mesmo”. A este sacrifício de renúncia de si próprio Ferenczi chamará de “a verdadeira castração”. (Ferenczi, 1934, p.125)

Diante desse grande desprazer que é gerado, uma saída é encontrada: a “desorientação psíquica”, gerada pela destruição do que mantém a coesão das formações psíquicas em uma entidade. A reação a esta dor fica então sendo da ordem do irrepresentável, tão incomensurável que, no entanto, devido à cisão efetuada, fica inacessível à memória e à lembrança. Dessa perspectiva, o trauma se apresenta, não se representa, e além disso, sua presença não pertence a nenhum presente e destrói o presente no qual parece introduzir-se. Diz Cabré (2006), “[…] um presente sem presença, um presente louco, em que o sujeito sai do tempo tentando situar seu sofrimento impossível em uma grande unidade”.

Dessa forma, o trauma se apresenta numa parte do sujeito como o que sabe e vê tudo, mas nada sente, e uma outra parte que sofre, mas não entende e é impotente e indefeso na sua dor muda e na morte psíquica que frequentemente o acompanha. Esta dor manifesta-se no mutismo, no isolamento da vida, nas condutas dôidas, automáticas e nas que ameaçam sua sobrevivência. O que é revelado é o assassinato de um Ego que não pôde crescer. O trauma, pertence assim, para Ferenczi, ao campo do não-nomeado, não-dito, não enfrentado, não entendido nem simbolizado, mas certamente, – a seu ver- vivido e experimentado.

É nesta circunstância que Ferenczi em Princípio de relaxamento e neocatarse (1930) coloca que enquanto uma das partes da personalidade que foi clivada “sobrevive em segredo e esforça-se constantemente por manifestar-se” (p.74), a outra parte, a que foi poupada, assumiria o trabalho de adaptação à realidade.

Com um comprometimento da capacidade de afetar e ser afetado pelo outro, obrigado a andar para frente, sem olhar para trás, a esta adaptação, que sugere uma pseudomaturidade, uma maturidade falsa, alguém que se “tornou maleável pela dissociação devida ao terror e ausência do Ego[…]” (Ferenczi, 1932, p. 50), tal qual uma “maturidade apressada de um fruto bichado”(1933, p. 119), Ferenczi deu o nome de progressão traumática.

V.- Na sala de análise: da apresentação do trauma à representação

É frente à impossibilidade de representação que o trauma permanecerá vívido. A todo este trabalho, Ferenczi via como uma integração do sentir inconsciente e do conhecer não sentido. O que vemos na clínica hoje, os pacientes apresentarem-se, sob a forma de depressões, de atuações impulsivas e autodestrutivas ou ainda pelas patologias do corpo. Quando o ânimo para viver não se encontra, quando se perdeu a espontaneidade, quando o que resta é um pedido de socorro, o corpo passa a ser o destinatário dessa memória traumática. As lembranças que foram comprimidas, convertem este corpo em escravo de seu papel de porta-voz e mártir de uma palavra que perdeu a voz, uma linguagem emudecida.

Foi então, da experiência com estes pacientes desesperados para serem compreendidos, que com seus meios de comunicarem-se através de gritos por que não sabiam falar, que se apresentavam por que não podiam representar sua história que Ferenczi debruçou-se a pensar tecnicamente sobre o trauma.

É a indiferença, a mentira, e a hipocrisia que enfraquecem a percepção que a criança tem de suas necessidades, impulsos e emoções. Ela fica desassistida e desprotegida, incapacitada para metabolizar os estímulos internos e externos ligados ao viver e às suas dificuldades. Não pode significar todos os inevitáveis acontecimentos dolorosos que derivam dos distúrbios de interação e comunicação, anulando, assim, seu valor como pessoa e implicando uma alteração da sensibilidade e da consciência. Uma agonia física e psíquica, uma catástrofe.

O trauma, segundo ele, já que permanece inacessível à memória de quem o vivenciou, será deduzido apenas a partir das “cicatrizes emocionais” que tomam seu lugar. Ferenczi entendia, então, que era necessário criar em análise condições psíquicas ambientais de confiança e de esperança para que um novo desenvolvimento ocorresse, sabendo bem que: “[…] o trauma não pode ser lembrado por que nunca foi consciente, pode somente ser revivido e reconhecido como passado”. (1932, p. 225)

A ferramenta da qual um analista possui para traduzir tais cicatrizes seria a contratransferência. Ela não somente deixa de ser um obstáculo para o trabalho analítico, mas se converte em instrumento técnico essencial para a compreensão do material inconsciente desse paciente.

Se regredir significa retroceder a um estado primitivo da relação e não a um estado auto-erótico do desenvolvimento pulsional, então a ajuda que o paciente espera e nos pede não se originará no auto-erotismo, mas do ambiente, ou seja, dos objetos primários. A consequência disso é que a regressão deixa de ser um mecanismo de defesa que deve ser eliminado o quanto antes, transformando-se em um elemento que o analista deve tratar com delicadeza e que, se necessário, deve deixar desenvolver-se plenamente, inclusive ao longo de muitas sessões.

É uma vantagem para a análise quando o analista consegue, graças a uma paciência, uma compreensão, uma benevolência e uma amabilidade quase ilimitadas, ir o quanto possível ao encontro do paciente. Cria-se, desse modo, uma base graças a qual se pode lutar até o fim na elaboração dos conflitos, inevitáveis a um prazo mais ou menos curto, e isso na perspectiva de uma reconciliação. O paciente ficará então impressionado com o nosso comportamento, contrastantes com os eventos vividos em sua própria família, e, como se sabe, agora protegido da repetição, atrever-se-á a mergulhar na reprodução do passado desagradável.” (1929,p.85)

Com sua incansável disponibilidade e hospitalidade interna, Ferenczi atendia a todo aquele que lhe procurava com o pensamento de que todo paciente, é, de certa maneira, uma criança, e que um de seus mais caros desejos é ser tratado como qual por seu analista. Ferenczi parece dizer, em Perspectivas da Psicanálise de 1924, que o paciente está a espera de melhores tempos e de encontros mais felizes para se arriscar e recuperar uma palavra sepultada viva e um destino que não ocorreu.

A preocupação clínica e terapêutica de Ferenczi era combater a submissão escravagista e as consequentes estruturas parasitárias fundadas sobre a introjeção trágica do agressor e seu ódio e sentimento de culpa, alcançando a criança não desenvolvida fora de si, exilada em uma cabeça separada do corpo, encapsulada em alguma parte do corpo como “gêmeo embrional” ou “teratoma” (1929p. 76).

Sua principal descoberta reside de que estes pacientes agora sem consciência, como uma criança que não é mais sensível ao raciocínio, precisaram tornar-se intensamente e imensamente sensíveis às emoções do outro para sobreviver. E o analista, não será poupado disso. Como disse ele, estes “pacientes não se impressionam com uma expressão teatral de piedade, mas apenas com uma simpatia autêntica”, e, […] “seja como for, adivinham, de um modo quase extralúcido, os pensamentos e as emoções do analista”. (1933, p. 115). Franco Borgogno (1997) diz que o trauma, então, haveria privado o indivíduo daquela “pele” fundamental que institui uma barreira psíquica protetora de formas de contágio e de identificação primitiva invasiva e invalidantes, ou seja, um desenvolvimento mental “privado de tela antiestímulo”. (p.172)

O maior receio de Ferenczi voltou-se então às análises. Queria ele discutir sobre a possibilidade da experiência psicanalítica ser traumatizante para o analisando. Preocupou-se com a possibilidade do trauma repetir-se na análise ao invés de se repetir. À esses pacientes que, como principal causa de trauma e de psicopatologia, a ausência de sintonia em relação a uma dosagem imprópria de frustrações e gratificações ocorreu, Ferenzci realizou uma (auto)crítica implacável.

Em sua prática analítica, ficou atento quando os pacientes os acusavam de ser insensível, frio, até duro e cruel, quando o censuravam por ser egoísta, sem coração e presunçoso, quando lhe gritavam: “depressa, ajude-me, não me deixe morrer nessa angústia…” (1933, p. 112). Então, fez seu exame de consciência para ver se apesar de sua boa vontade consciente, não haveria alguma ponta de verdade nessas acusações. E foi assim, pouco à pouco que Ferenczi chegou a convicção de que esses pacientes percebiam com muita sutileza os desejos, as tendências, os humores as simpatias e antipatias do analista, mesmo quando este está inteiramente inconsciente disso.

Com isso, em 1933, escreve que aos analistas, cabe, “não só aprender a adivinhar, a partir das associações dos doentes, as coisas desagradáveis do passado, mas também obriga-nos muito mais a adivinhar as críticas recalcadas ou reprimidas que nos são endereçadas” (p. 113)

É aí que nos defrontamos com resistências não desprezíveis, não as do paciente, mas as nossas próprias resistências. Devemos antes de tudo, ser analisados muitíssimo bem, e conhecer a fundo todos os nossos traços de caráter desagradáveis, exteriores ou interiores, a fim de estarmos prevenidos para quase tudo o que as associações dos nossos pacientes possam conter de ódio e de desprezo escondidos. ” (1933, p. 113)

Ferenczi dá o nome de “hipocrisia profissional” (1933, p. 113) à relação de análises que se tornaram cada vez mais impessoais e que acolhem polidamente o paciente. Muitas vezes o analista pode não perceber que uma grande parcela da resistência transferencial é artificialmente provocada por seu comportamento, que consiste em flutuar como uma divindade acima do paciente que se encontra no nível de uma criança. O risco, então, é de se instalar uma confusão de línguas quando o analista imerso em um discurso teórico, repete um desmentido: o desmentido da realidade do que é narrado pelo analisando e de uma língua que lhe seria própria. O perigo é de ridicularizar a realidade psíquica do analisando e este cair numa extrema submissão em consequência manifesta da incapacidade ou do medo em que se encontra de nos desagradar com suas críticas. Então, “a situação analítica, essa fria reserva, a hipocrisia profissional e a antipatia a respeito do paciente que se dissimula por trás dela, e que o doente sente com todos os seus membros, não difere essencialmente do estado de coisas que outrora, ou seja, na infância, o fez adoecer” (1933, p. 114).

Quando isso acontece, a psicanálise agrava o desmentido da experiência infantil que já havia ocorrido por responsabilidade dos adultos. Se é o desmentido de um adulto decisivo no fenômeno traumático, consequentemente, diz Sabourin (1988, p. 154) “é o desmentido pelo psicanalista o que pode provocar passagens ao ato muito graves, por uma reprodução pior do que o traumatismo original”.

Foi então, em 1933, que Ferenczi declara ter descoberto e resolvido esse problema puramente técnico abrindo acesso a um material escondido e do qual até agora se dera muito pouca atenção: em contraposição a uma atitude de hipocrisia profissional, Ferenczi valoriza e recomenda a modéstia do analista.

Na realidade, é bem possível que certos traços, externos ou internos, do paciente nos sejam dificilmente suportáveis. Ou ainda, podemos sentir que a sessão de análise gera uma perturbação desagradável numa preocupação pessoal e íntima. Também nesse caso não vejo outro meio senão tomar consciência do nosso próprio incômodo e falar sobre ele com o paciente, admiti-lo, não só como possibilidade, mas também como fato real.” (1933, p. 114)

Para isso é importante que o analista consiga reconhecer seus erros e seus verdadeiros afetos de forma que o paciente possa confiar em sua sinceridade e franqueza. Ao contrário de ferir o paciente, proporcionava um extraordinário alívio.

A estes pacientes, Ferenczi demonstrou-se grato por ensinarem-lhe como pode ser difícil deixar de lado fatos que abalariam a nossa segurança e autoridade protegendo-nos atrás de uma tendência excessiva em certas construções teóricas. Logo, o fanatismo da interpretação pode ser algo extremamente nocivo quando promove o esquecimento de que a técnica da interpretação é apenas um dos meios para se conhecer o estado psíquico do analisando e não o objetivo principal da análise. Em Perspectivas da Psicanálise de 1924, Ferenczi coloca que como a interpretação se restringe a certos detalhes, seria indispensável a compreensão do conjunto do texto uma vez que o mais importante é a consideração da situação analítica como um todo.

Entretanto, é também ao desmentido por parte do analista que acontece quando ele não proporciona um espaço mental como testemunha de autorização para soltar a língua do paciente quanto a experiências malsucedidas de tratamentos anteriores dos quais o paciente viveu, que gostaria de dar fundamental importância e problematizar a gravidade de tal acontecimento. O trauma na infância tornou-se patológico pela negação do acorrido através da frase “é coisa da tua cabeça” ou pela desautorização de ser falado, por não poder tocar no assunto, o que dessa forma, a criança automaticamente compreende através do silêncio do outro, que está errada em pensar o que está pensando e cala-se pelo medo do desamparo e submete-se. A não autorização para se falar aborta a possibilidade de uma história ser narrada. Ao analista caberá então a tarefa de aceitar ser testemunha de mais uma, duas, três… histórias de maus-tratos e maus-tratamentos ao paciente conscientes ou inconscientes por parte de seus colegas de profissão.

Verdadeiramente, é necessário ao profissional que aceita atender estes pacientes, uma coragem para testemunhar e uma capacidade de tolerar não apenas uma história mal contada, mas principalmente uma ou mais histórias mau contadas. Se assim não se suceder, o paciente obediente, que se encontra em assimetria de posição entre ele e o analista, renunciar-se-à novamente a si próprio, ou se tiver uma parcela relativamente preservada de saúde mental, abandonará a análise.

Uma questão agora se apresenta: a resistência é realmente do paciente ou seria nossa? Somos realmente como analistas, capazes de profundamente nos questionar sobre nosso fazer analítico a tal ponto em que Ferenczi teria razão em afirmar que cabe a nós encontrarmos o melhor jeito de atender as necessidades de nossos pacientes e que então ao abandonarem o tratamento denunciam nossa incapacidade? Então desejo a todos nós, mais in-capacidade!

A este analista, que capaz de admitir seus erros e de renunciar a eles, capaz de autorizar as críticas de seus pacientes a ele próprio ou a outros, sejam estes quem for, sem necessidade de proteger-se ou proteger a alguém, numa condição não narcísica e de presença sensível e amorosa da qual não ataca a percepção correta do analisando, que o analista ganhará a confiança do paciente, e é esta confiança que estabelece “aquele algo” entre o presente e um passado insuportável e traumatogênico, onde o passado seja reavivado, não enquanto reprodução alucinatória, mas como lembrança objetiva. Que as lembranças de uma relação assimétrica de autoridade versus dependência, vivida num tempo passado entre o adulto e a criança, torne-se uma história vívida pela possibilidade de ser re-vivida num tempo presente em uma nova relação assimétrica agora sensível versus independência entre o analisando e o analista.

Mas o que, de verdade, esses pacientes buscam numa análise? A possibilidade de in-diferença e não de indiferença. De in-sensibilidade e não de insensibilidade. De in-capacidade e não de incapacidade. Um analista que não resiste à experiência de afetação mútua promovida pelo encontro analítico. Um analista que afeta porque não tem medo de ser afetado.

É a conquista desta diferença na análise que se difere da indiferença da infância, que seremos convidados para testemunhar um crime hediondo, cuja lesividade é acentuadamente expressiva. Trata-se de um crime grave que feriu a dignidade humana, um crime do qual se refere a um assalto seguido de roubo de identidade, sequestro, cárcere privado, tortura física e/ou psicológica e assassinato. O assassinato de uma alma. Ser-nos-á dada uma queixa, uma espécie de boletim de ocorrência, uma denúncia em que o pedido não é o de punição aos agressores e sim de absolvição própria. Por que aqui, é a vítima que segue aprisionada, responsável por um crime que não foi ela quem cometeu, presa injustamente e condenada à morte.

Ferenczi nos disse: que lhe “soltem a língua”. (1933, p. 114). Querem o direito e a liberdade às palavras, querem o excesso a elas… Querem de volta a liberdade para viver, a liberdade para sentir, a liberdade para pensar, para sonhar… querem voltar para casa, para sua própria casa, querem voltar a ser quem teriam sido se não as houvessem atrapalhado antes, se não tivessem sido roubadas de si próprias, querem habitar-se, querem-se de volta, querem estar dentro de si, livres….

Referências

Borgogno, F. (1997). Uma contribuição de Ferenczi à psicanálise infantil: a pensabilidade do trauma e do traumático. Revista Percurso. Rio de Janeiro.

Ferenczi, S. (1924). Perspectivas da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

Ferenczi, S. (1928). A criança mal-acolhida e sua pulsão de morte. In S. Ferenczi,  Psicanálise III. São Paulo: Martins Fontes. (Obras completas, 3)

Ferenczi, S. (1928). A adaptação da família à criança. In S. Ferenczi, Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes. (Obras completas, 4)

Ferenczi, S. (1930). Princípios de relaxamento e neocatarse. In S. Ferenczi,  Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes. (Obras completas, 4).

Ferenczi, S. (1931). Análise de Crianças com Adultos. In S. Ferenczi, Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes. (Obras completas, 4).

Ferenczi, S. (1932). Diário clínico. São Paulo: Martins Fontes.

Ferenczi, S. (1933). Confusão de línguas entre o adulto e a criança. In S. Ferenczi, Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes. (Obras completas, 4).

Sabourin, P. (1988). Ferenczi: paladino e grão-vizir secreto. São Paulo: Martins Fontes.

[1] Membro Efetivo do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre (CEPdePA).

  E-mail: danielatremarin@gmail.com, de Bento Gonçalves – RS, Brasil.

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