Por um novo envelhecer

Autor: Fruett, Ana Cássia
Título: Por um novo envelhecer 
Año de edición: 2015.
200 páginas.
Editora Prêmios Cidade de publicação: Fortaleza, Brasil

Comentam: Juliana Lang Lima[1] y Marcelo Leães[2]

Ler “Longeviver: o inconsciente no declínio da vida”, é sobretudo uma atividade prazerosa. A autora Ana Cassia Fruett mescla arte à farta bibliografia psicanalítica sobre o tema, usando em diversos momentos a literatura e o cinema para melhor compreender esse período que denominamos “velhice” – e que se torna tão difícil de definir, uma vez que o critério cronológico é certamente insuficiente para delimitá-lo. Assim, Simone de Beauvoir, Shakespeare, Clarice Lispector, Lewis Carol e outros circulam pelo texto, trazendo um pouco de luz à obscuridade que ainda envolve a velhice.

Diante das múltiplas denominações que recebem os sujeitos que envelhecem, Ana Cassia sinaliza a interdição da palavra “velho”, sugerindo que esta denuncia um desprazer, um paradoxo entre uma alma sem idade e um corpo que sofre os efeitos da passagem do tempo. Contudo, a autora acredita que esse termo não comporta a complexidade desse período, propondo o significante “envelhescente”, que indica o acontecimento de um processo. A aproximação com o termo “adolescente” não é fortuita: ambos referem-se a períodos que compreendem mudanças biológicas mas também incluem transformações culturais e necessidade de adaptações.

É nesse contexto que Ana Cassia propõe uma nova velhice como projeto de vida, apontando para os benefícios de mudar, sustentando a ideia de que a libido não envelhece jamais ainda que o corpo entre em declínio. Para realizar essa trajetória, ela recomenda, como psicanalista, ouvir o

inconsciente, mas também refere a importância de pensar a meia-idade, período que cronologicamente corresponderia entre os 40 e 60 anos, que faria necessária a elaboração de mudanças prévias ao envelhecimento de fato. Nesse momento seria possível identificar temores e fantasias com relação à passagem do tempo, podendo-se assim prevenir crises e definir destinos da velhice.

Assim como as mudanças na cultura impactam o homem contemporâneo, o envelhecimento o desaloja de seu terreno conhecido – biológica e psiquicamente. Nesse interjogo entre corpo e psiquismo, Ana Cassia contempla em seu texto dois aspectos que considera fundamentais para compreender e atuar com analisandos em idade avançada: sexualidade e memória. Assim, entre suas ideias encontramos questionamentos sobre a sexualidade, relacionando-a não somente à libido sexual infantil, com seus caminhos e fixações, mas também à sua apresentação em idade adulta, ou seja, o exercício da genitalidade, muitas vezes negado inclusive por profissionais da saúde. Com relação à memória, afirma ser um dos grandes motivos de busca de consulta entre velhos, especialmente quando falha, e considera a perda de memória com origem muito mais emocional do que neurológica, sendo a tarefa da análise transformar desistência em resistência. Utilizando as teorias psicanalíticas para compreender os processos iniciais de tornar-se homem, mulher, criança, adolescente, adulto, e por fim velho, depara-se com um contexto de identificações e desidentificações, defendendo a análise para libertar o velho de identificações aprisionantes e alienantes.

Já na segunda metade do livro, a autora traz problemáticas importantes como as mudanças no corpo no declínio da vida e destaca a possibilidade do sujeito se reinventar diante dessa constatação. Aborda como os contratos conjugais que o sujeito faz ao longo da vida urgem a demanda de revisão por feridas narcísicas abertas no corpo, implicando a necessidade do par reinventar suas formas de amar ou a reinvenção de si mesmo através de novas configurações conjugais. Do ponto de vista metapsicológico, trabalha a complexidade da bissexualidade infantil como aspecto fundamental para a constituição do Eu e o modo como influencia as relações de objeto em um período avançado da vida em virtude das mudanças do corpo, o palco onde se exibem algumas de nossas fragilidades.

É fato que vivemos em um tempo em que se vive por mais tempo e, desse modo, o envelhecer ganha complexidade uma vez que a civilização se vê diante da necessidade de descobrir como viver essa expectativa de vida maior. A partir da ideia freudiana de que o Eu é antes de tudo um eu corporal, a autora formula que deve-se dar atenção à representação mental do corpo à medida que ele assume um lugar da cena psíquica. E, certamente, essa é uma tarefa complexa que o analista desempenha em seu ofício: saber analisar o corpo como uma via de comunicação inconsciente.

Uma das características marcantes da escrita de Ana Cassia Fruett é trazer uma perspectiva aberta e esperançosa para essa etapa da vida que, de modo geral, é alvo de rechaço das políticas públicas e da população. No entanto, parece criticar a função de memória auxiliar que as novas tecnologias, principalmente a internet – oferecem para a sociedade, no sentido de que a memória é um recurso a ser estimulado e que o excesso de informações e ruídos da nossa sociedade afetam a saúde mental. Entretanto, relativiza sua crítica ao propor que as novas tecnologias possam ser um novo objeto de relação do envelhescente e, assim, se utilizar o potencial das redes sociais com sabedoria, permite ser um campo fértil de comportamentos favoráveis ao bem-estar.

Destaca que existe uma urgência em se resgatar as memórias que nos constituem para que estas possam ser retranscritas e elaboradas, vindo a ser um capital importante para a criatividade, o humor e a sublimação. No transcorrer do livro, Ana Cassia vai desvendando alguns interrogantes importantes acerca do envelhecimento – ou do longeviver, como propõe. Se, por um lado, parece abordar temas que são universais, como a transmissão das identificações inconscientes dos pais aos filhos, também traz situações específicas de cada época. É por esse caminho que a autora conclui, por exemplo, que existe um pacto que os pais de hoje estabeleceram inconscientemente, qual seja a promessa de proteção, prazer e formação continuada, enquanto os filhos retribuem a eles não tomando seu lugar de pais na constelação familiar.

A autora ainda afirma que é necessária uma mudança psíquica para que exista um novo envelhecer e esta mudança está articulada de modo íntimo com as identificações que vão, ao longo do tempo, se cristalizando. Assim, a autora propõe que os acontecimentos da vida devem ser narrados e rememorados para que possam ser esquecidos. O acúmulo de dor emocional decorrente das perdas inevitáveis da vida formam, segundo a autora, quistos que se materializam na forma de esquecimentos, fantasmas brancos e vazios mentais que lembram os sintomas do Alzheimer.

Ao longo da leitura do livro, a autora vai deslindando sua temática como uma progressão da vida em direção ao seu fim. Ao final do seu livro, intitula seu penúltimo capítulo com a ideia de que a morte nos informa sobre o que realmente importa. Traz a concepção freudiana de que a morte nos é irrepresentável e que só temos alguma notícia através de seus derivados, como a angústia. A transitoriedade se torna um dado narcísico que a sociedade precisa saber lidar.

As colocações da autora são precisas e a complexidade que o assunto traz para pensarmos sobre nossa própria condição em vida, faz com que Ana Cassia traga para debate, além dos poetas, diversos pensadores: desde Freud, Lacan, Winnicott, Quinodoz, nossa colega cepiana Sueli Santos, Irvin Yalom, Bauman, Aulagnier, Calligaris, Green. Isto posto, seu escrito parece obedecer a uma nova lógica: ela não o escreve desde um referencial teórico em direção aos envelhescentes, mas seu oposto: se abastece das constatações subjetivas e sociais atuais sobre o velho e encontra em diferentes referenciais teóricos um abrigo para suas ideais.

O livro de Ana Cassia é um sintoma da atualidade desse recente fenômeno mundial, isto é, o progressivo número de envelhescentes, sua demanda de tratamento e as incógnitas que o envelhecimento carrega consigo. Torna-se um livro relevante àqueles que desejam embrenhar-se no campo de uma etapa da vida que nos convoca e coloca interrogantes em qualquer um que se arrisque a pensá-la. Ainda, procura trazer suas proposições de forma embasada e entusiasmada, defendendo que todos temos o direito de reinventar-nos diante dessa trajetória chamada vida tomada em sua transitoriedade. Boa leitura!

[1]Psicanalista, membro efetivo do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre (CEPdePA). E-mail: langlima@yahoo.com.br

[2]Psicanalista, membro associado do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre (CEPdePA). E-mail: marcelolubiscoleaes@gmail.com

         

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