Homenaje

Virgínia Woolf y la Melancolia

Debora Zaffari Lora[1]

Resumen:

 El presente trabajo va abordar a través de la vida de Virgínia Woolf y uno de sus romances literários el mundo del sujeto melancólico. Se intentará pensar en la estruturación dese sujeto así como su sufrimiento por una comprensión metapsicológica de Freud y Marie Claude Lambotte. A partir de la relación de Virgínia Woolf con su escrita, se abre una posibilidad de profundizar la lógica del mundo interno del melancólico.

Palabras clave: melancolía, Virgínia Woolf, ideal del yo, yo ideal, fusión, objeto, introyección

Virgínia Woolf e a Melancolia

“…Pois tem razão o filósofo ao dizer que entre a felicidade e a melancolia não medeia espessura maior que a de uma lâmina de uma faca.” (WOOLF, 1928)

Em 1895, Freud (1986) refere sobre a existência de um buraco na malha representativa do eu, pelo qual se escoa a energia libidinal, como uma hemorragia. Esta remete à impossibilidade do melancólico de se assegurar da presença do objeto, dos sedimentos das identificações primárias (Delouya, 2010). Na melancolia a representação do objeto foi abandonada pela libido, deixando uma ferida aberta que atrai a energia de outras direções, esvaziando o eu até este tornar-se empobrecido. Este esvaziamento remete ao sofrimento melancólico, uma tormenta para o sujeito que não sabe por que sofre tanto, pois não sabe o que perdeu naquilo que foi perdido.

Será a partir de uma falha especular, que tem-se, originalmente, a indiferenciação afetiva. Nesta encontra-se a hemorragia psíquica postulada por Freud, um esvaziamento do eu, no qual a autocrítica toma lugar dos afetos. (Lambotte, 1997).

É na falta de um eu ideal estruturante que surge o modelo superegóico tirânico, na medida em que há esta falha de reconhecimento, de existência; o eu ideal congela-se em um ideal de eu todo poderoso inalcançável (Lambotte,1997). Será na vivência de uma perda ideal de natureza inconsciente que o eu retorna ao momento de identificação primária, através da identificação narcísica, cindindo-se e alojando o objeto dentro de si.

Virgínia Woolf, renomada escritora do século XX, conquistou glória e destaque devido ao seu dom de escrever. Nasceu em 25 de janeiro de 1882, em uma tradicional família burguesa londrina, a qual dividia seu tempo em Londres e St. Ives, uma pequena cidade praiana, onde passavam o verão – estes momentos são referido com verdadeiro júbilo por Virgínia, os quais tiveram fim quando a mãe veio a falaecer, aos seus dozae anos. (Lemasson, 2011)

Será o tema das águas, assim como da tradicional mulher vitoriana, como era sua mãe, que assumirão o centro de muitas de suas obras, o paraíso perdido da infância. O fluxo e o refluxo das águas representam o contraponto entre o tempo e a eternidade, a vida e a morte, a dor e a alegria, entre o movimento e a imobilidade. Expressa o drama de existir através do fascínio pelas águas que poderia tragar os corpos e acalentá-los. A água está por tudo, sendo por ela que se começa e por ela que se termina. De St. Ives ao rio Ouse.

Em seu famoso romance, Passeio ao Farol, Mrs. Ramsay era descrita de forma muito semelhante a sua mãe – aquela que, como o farol, iluminava a todos, mas de um lugar distante. O pai surge como Mr. Ramsay e tal qual ocorre na percepção de Virgínia, a esposa devotada dedica sua vida ao marido e aos filhos. Lily, é a filha, uma pintora que, após a morte da mãe, tenta, através da pintura, exorcizar as vozes que se impõe a ela e anunciam a volta de Mrs. Ramsay. (Mannoni, 1999).

“Lily consegue criar a mãe que necessita no presente, encontra-se com ela num espaço imaginário compartilhado. Desmistificada como mãe, Mrs. Ramsay idealizada pertence a outro tempo. É a lembrança viva do passado que a autora tenta reter. O que fica reelaborado são todas as suas demandas à mãe da infância, que não terminavam em desejo algum.” (Mannoni, 1999, p. 45).

Virgínia percebe o quanto aquele romance se misturava de forma sinistra com sua história. Após terminar de escrever, Virgínia refere ter sentido uma libertação:

“Escrevi o livro muito rápido e, depois de escrito, parei de ser obsecada por minha mãe. Não ouço mais sua voz, não a vejo mais…Expressei uma emoção sentida há muito tempo, profundamente. E ao expressá-la, eu a expliquei e depois deixei em repouso.” (Woolf, 1999, apud Mannoni, p. 27).

A escrita parece surgir como uma possibilidade de encontrar o objeto, de apreendê-lo. É através da busca pela perfeição da escrita que Virgínia lança-se de forma impiedosa em busca de uma apreensão que nunca ocorreu. A similaridade que surge entre os personagens e seus pais reais, bem como a relação vivida com ela, proporcionam a Virginia uma nova possibilidade de sedimentar estes objetos. Estes que permanecem em suspenso, não introjetados de forma satisfatória para que lhe deem uma sensação de si. Esta mãe invisível, este fantasma que a atormenta, ganha vida a partir de sua própria criação.

O ideal inalcançável dava a tonalidade desta busca, de apreender o objeto de forma perfeita. É a palavra perfeita, acompanhada de poesia, que desperta uma apreensão nos leitores. O abandono, a tristeza, a indignação e, principalmente a percepção do vazio existencial, assim como a solidão, são temas que se destacam ao longo de sua obra. A possível não incorporação satisfatória do objeto no início de sua vida deixa uma marca que sela seu destino, Virgínia encontra no viés da escrita romancista a busca do que não aconteceu, uma incorporação satisfatória que lhe permite sentir um eu unificado, integrado; podendo nascer. Assim ela refere: “O ato de escrever é o que me dá a minha proporção.” (Woolf, apud Nathan, 1989, p. 145).

Virgínia pensa ter se livrado do objeto, após perceber uma apreensão perfeita deste através da escrita. O reconhecimento da sociedade atesta o quanto ela consegue se aproximar desta apreensão perfeita, mas, mesmo com toda glória, ela sente que não houve uma apreensão suficiente para se desligar, para poder viver a perda. A escritora continua a sentir a perda como um desaparecimento de seu eu. Ela tenta procurar seu eu a partir de um ideal todo potente; como nunca poderá alcançá-lo sente-se perder-se a cada frustração.

O caráter exigente e ideal vai acompanhar a escrita de Virgínia, apontando para o ideal inalcançável. A escritora podia ficar horas em cima de uma palavra, uma frase e, mesmo sendo reconhecida como uma grande escritora, esta não se reconhecia assim, caindo enferma a cada fim de um romance literário. No auge de sua glória, em 1932, ela se tortura: “Talvez seja verdade que minha reputação agora só irá declinar. Vão me fazer de ridícula. Vão apontar-me com o dedo. Que atitude deverei adotar?”. (Woolf, apud Lemasson, p. 238-239).

Estes momentos de glória e reconhecimento podem ser entendidos como os mais perigosos para Virgínia, já que, em função de estar fundida ao objeto este também partilha da glória. Desta forma, os momentos de crise e auto-depreciações surgiam para anular estas conquistas que eram também partilhadas pelo objeto odiado.

 “Por que não escreverei com maior frequência? Claro, o que impede é a própria vaidade. Ainda ante a mim mesma quero aparecer como todo um êxito. Mas igualmente não chego até o fundo. Isso vem de não ter filhos, de viver longe dos amigos, de não conseguir escrever como deveria, de gastar muito na comida, de estar ficando velha…” (Woolf, apud Pedrón de Matín, 1997, p. 961)

Percebe-se que há um ponto de contradição quando pensa-se que será a escrita que lhe possibilitará uma existência, uma identidade, uma esperança de vida. Entretanto, a cada término de suas obras, Virgínia caía enferma, permanecia na cama, não comia, tendo fortes dores de cabeça. Como refere Mannoni (1999, p. 77), “uma depressão depois de cada parto”. Cada romance era como se fosse o primeiro, remetendo ao primeiro encontro durante o surgimento do eu, voltando sempre a este momento mítico. A tortura contra si e a desistência de comer apontam para a tentativa de eliminar este objeto tão odiado exatamente por ser tão imprescindível.

“Só consigo sobreviver graças ao trabalho… não sei de onde isso vem. Assim que paro, parece-me que afundo. E, como sempre, estou convencida de que, se mergulhar mais longe, chegarei à verdade” (Woolf, apud Lemasson, 2011, p. 252).

Em 28 de março de 1941, aos 59 anos, Virgínia Woolf deixou duas cartas, uma para Leonard e outra para Vanessa. Nestas referia não suportar mais a crise melancólica que reincidia, sentindo-se um peso para a irmã e o marido. Ela caminha até o rio Ouse, coloca algumas pedras nos bolsos e adentra o rio mergulhando e afundando nas águas. (Lemasson, 2011)

Seu suicídio lembra seu fascínio pelas águas, de como elas podem acalentar e tragar as pessoas. O acalento necessário, que pode-se entender como um objeto que estaria exercendo uma fusão satisfatória nos primórdios do eu rudimentar, vem acompanhado de tragar, de ser engolido. Parece que a não introjeção satisfatória do objeto leva o eu a ser tragado, a desaparecer, a perder-se. Assim, a existência só dar-se-ia na tentativa de fundir-se na busca da fusão perfeita. Parece que mergulhar no rio Ouse foi a forma ideal de eternizar o estado fusional. Isto ilustra de forma significativa a ambivalência, pois é através do ato do suicídio que busca esta fusão completa, mas também é através deste ato que tenta libertar-se do objeto que tanto lhe perturba. Este objeto imprescindível, muito odiado, engole o eu. Assim fazendo desaparecer o objeto fantasma que assombreia-lhe, acaba por levar junto o eu.

Desta trajetória percorrida pelo mundo de Virgínia Woolf pode-se pensar que o diário, assim como os romances, poderiam ser comparados a uma análise, mas a diferença é a existência de um outro que possa fazer ligações para haver uma ressignificação deste mundo interno. O ato de escrever, de criar um novo objeto, que é o que encontra-se no processo de sublimação, não foi suficiente para ligar e garantir-se de um novo objeto internalizado. Como refere Lacan: “Nenhuma regulação imaginária que seja verdadeiramente eficaz e completa pode estabelecer senão pela intervenção de outra dimensão. O que busca, pelo menos, miticamente, a análise.” (Lacan, 1954/2009, p. 166).

Pode-se pensar que a relação analítica também estará dentro de um ideal, marcado fortemente por uma ambivalência. Havendo uma mistura de analista e analisando neste jogo fusional narcísico no qual o melancólico se vê inserido. O trabalho clínico será árduo, na medida em que o êxito da análise apontará para um êxito deste objeto odiado e imprescindível. Os ataques a si, aos poucos, serão dirigidos ao analista, que poderá, muito lentamente, costurar este enlace, este tipo de ligação que o paciente melancólico propõe. Assim, a análise buscaria este enlace, esta ligação, reconstruindo e ressignificando estas marcas, a partir da relação analítica, que surge nos trâmites da transferência.

Bibliografía

Delouya, D.( 2010). Depressão. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Lacan, J. (1954/2009). O Seminário: Os Escritos Técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar.

Lambotte, M. (1997). O Discurso Melancólico. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Lemasson, A. (2011). Virgínia Woolf. São Paulo: L&PM Pocket.

Mannoni, M. (1999). Elas não sabem o que dizem. Virginia Woolf, as mulheres e a psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Masson, J. (1887-1904/1986). A Correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago.

Nathan, M. (1989). Virginia Woolf. Série Escritores de sempre. Rio de Janeiro: José Olympio.

Pedrón de Martín, L. El Diario Intimo de Virgínia Woolf: Interludio para una Passion Clandestina. Revista de Psicoanalisis, Buenos Aires, T.54, n.4, Oct./Dic. 1997

Woolf, V (1928/1978). Orlando. Tradução de Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

[1] Psicolóloga, Membro Provisório do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre

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